17 de junho de 2026

Por que a economia cresce, mas o dinheiro não sobra?

Quanto maior a taxa Selic, maior é o efeito “boca de jacaré” sobre as economias das famílias ao longo do tempo
Foto: www.kaboompics.com via pexels.com

Brasil registra alta de endividamento familiar, com 80,2% das famílias devendo e 29,6% inadimplentes em 2026.
Taxa Selic caiu para 14,75%, mas juros altos ainda encarecem crédito e dificultam quitação das dívidas antigas.
Governo oferece renegociação de dívidas e crédito consignado, enquanto famílias adotam táticas para priorizar gastos essenciais.

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Resumo gerado por Inteligência artificial

Esta é a décima quarta reportagem da série Por Dentro do Sistema Financeiro, uma parceria entre o Jornal GGN e a Contraf-CUT que busca analisar por dentro do Sistema Financeiro Nacional

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Os dados e tabelas mostram que o Brasil passa por um momento econômico bastante positivo, com queda do desemprego e aumento da renda média. Entretanto, para muitas famílias, a sensação é de que a conta simplesmente não fecha.

Como explica a economista Juliane Furno, o cenário atual é marcado por um grande “descompasso”: existe uma falha grave na tradução dos números do PIB para o bem-estar social. 

A percepção de piora econômica, mesmo com a inflação sob controle, é o reflexo de uma renda que cresce no papel, mas é drenada antes mesmo de chegar à despesa.

Quando os Dados não Enchem o Prato

Esqueça os manuais que mandam apenas “cortar o cafezinho”. Em 2026, a educação financeira tornou-se uma ferramenta bruta de sobrevivência. Segundo Victor Pagani, diretor adjunto do DIEESE, as famílias brasileiras operam hoje sob uma “estratégia de guerra”.

“Para quem ganha perto de um salário mínimo, cortar gastos significa cortar serviços essenciais como água/luz/gás ou cortar a própria alimentação. Então, não tem de onde cortar”, pontua Pagani. “Somado a isso, tivemos o advento das bets, totalmente desreguladas, e que provavelmente contribuíram para o aumento dessa situação de endividamento das famílias, sobretudo das mais pobres”.

Dentro desse contexto, a educação financeira não está nos conceitos transmitidos por muitos economistas e especialistas nas redes sociais, e sim na decisão entre os gastos essenciais e urgentes.

É a adoção de táticas como frequentar a “xepa” da feira, ou substituir a compra de alimentos frescos por ultraprocessados, mais baratos e menos nutritivos, ou gerenciar o atraso de contas de consumo — como água e luz — em um rodízio perigoso para evitar o corte de serviços básicos enquanto tentam escapar da “bola de neve” dos juros.

A fotografia atual das finanças domésticas mostra o tamanho do desafio estrutural que enfrentamos:

  • Percentual de famílias endividadas: 80,2% (maior nível desde 2010).
  • Percentual de inadimplentes (contas em atraso): 29,6%.
  • Comprometimento da renda com o serviço da dívida: 29,2% (quase um terço do salário vai direto para o sistema financeiro).

(Fonte: CNC/Bacen, Fev/2026)

A Taxa Selic: A “Visita Indesejada” no Orçamento Familiar

Recentemente, o Comitê de Política Monetária (Copom) reduziu a taxa Selic de 15% para 14,75% ao ano. Embora o movimento pareça positivo, ele carrega um peso histórico: foi o primeiro corte desde maio de 2024. O Brasil ainda ostenta um dos maiores juros reais do mundo, funcionando como um freio de mão puxado para quem precisa de crédito.

A Selic alta impacta diretamente o seu dia a dia:

  • Encarecimento do crédito: Empréstimos como CDC, consignados e financiamentos de veículos permanecem proibitivos.
  • Impacto no custo das dívidas antigas: A queda lenta da taxa básica não alivia de imediato o estoque de dívidas já contraídas, dificultando a quitação.
  • Desestímulo ao emprego e investimento: Com juros altos, as empresas investem menos, travando a criação de postos de trabalho e a circulação de riqueza real.

Um dado técnico explica visualmente por que o aumento do salário não é sentido de fato no bolso da população: a “Boca de Jacaré”. Desde a pré-pandemia, o rendimento médio real do brasileiro cresceu 12%.

No entanto, após o pagamento de dívidas com o Sistema Financeiro Nacional (SFN), esse ganho real despenca para apenas 3%. Ou seja: 9% de todo o ganho real de rendimento da população foi “engolido” pelos bancos e financeiras.

Na prática, o esforço do trabalhador para produzir e ganhar mais não resulta em consumo ou poupança, mas serve para alimentar o rentismo. O SFN “capturou” a melhora da renda, impedindo que o crescimento econômico circule no comércio do bairro.

O cartão de crédito continua sendo o principal ralo financeiro, apontado por 85% das famílias endividadas como o grande problema. O cenário é alarmante: os juros do rotativo saltaram de 330% ao ano em 2021 para 425% ao ano em 2026.

“A gente fala muito da taxa Selic, mas quando a gente vai ver o real patamar dos juros elevados, a alta da Selic resulta em alta dos juros para pessoa física, o tomador do crédito final”, lembra Pagani, do Dieese.

“Se pegarmos a taxa de juros rotativa do cartão de crédito, em janeiro/26 segundo BC, ela estava em média 425% ao ano – e com a alta da Selic ela saltou de 330% em janeiro/21 para 425% em janeiro/26”, afirma o economista. “Mas também tem cheque especial, crédito consignado, consignado, crédito para compra de veículos, motocicletas, todas as taxas de juros aumentam quando BC aumenta a taxa Selic”.

É importante destacar que, embora exista um Teto do Rotativo de 100% implementado pelo governo, ele só vale para dívidas contraídas a partir de janeiro de 2024. 

Isso explica por que a média de juros ainda é tão alta, já que o estoque de dívidas antigas continua sob as regras abusivas de outrora, asfixiando milhões de brasileiros.

Para enfrentar essa crise, o governo federal tem lançado mão de medidas para desafogar o orçamento das famílias:

  • Desenrola: Já promoveu a renegociação de R$ 53 bilhões em dívidas, beneficiando 15 milhões de pessoas.
  • Novo Programa de Reconciliação: Com foco em quem ganha até 3 salários mínimos, o programa prevê o perdão de até 80% das dívidas e refinanciamento do saldo com juros reduzidos.
  • Crédito do Trabalhador: Um robusto programa de consignado vigente desde 2025, que já movimentou R$ 117,1 bilhões, tentando oferecer uma alternativa ao crédito abusivo do varejo.

Dicas Práticas de Sobrevivência Financeira

A educação financeira individual é um passo importante, mas ela não faz milagres diante de um sistema desenhado para concentrar renda.

A política de valorização do salário mínimo está no caminho correto, mas seu efeito é neutralizado pela “boca de jacaré” do sistema financeiro. É urgente que o Banco Central colabore com quedas consistentes e profundas nos juros e que haja uma regulamentação mais rígida contra os juros abusivos.

Sem essas mudanças estruturais, o suor do trabalhador brasileiro continuará servindo apenas para alimentar o lucro recorde dos bancos, enquanto o crescimento da economia segue sem chegar ao prato de quem mais precisa.

Para as famílias que estão no limite, a gestão financeira deve ser tática e analítica:

  1. Priorização Absoluta: O foco deve ser a soberania alimentar e as contas que geram interrupção de serviço (água, luz e gás). A alimentação da família e a manutenção do teto são inegociáveis.
  2. Troca de Dívida “Cara” por “Barata”: Se o endividamento no rotativo ou cheque especial é insustentável, buscar linhas como o consignado ou o novo “Crédito do Trabalhador” é o caminho. Contudo, fica o alerta: o consignado é uma ferramenta de alívio, mas não é milagrosa; as taxas ainda pesam e devem ser usadas com cautela extrema.
  3. Uso Estratégico de Programas Sociais: O Bolsa Família e o Gás para Todos não são apenas auxílios, são pilares de manutenção da alimentação mínima. Use-os para proteger o prato de comida enquanto renegocia as dívidas bancárias.

Leia abaixo a íntegra da série “Por Dentro do Sistema Financeiro”

Cartão Private Label: aliado do varejo, vilão do orçamento

O papel do sindicato na proteção dos trabalhadores das fintechs

Os Erros de Fiscalização do Banco Central no Caso Master

Sistema financeiro brasileiro nega crédito como direito e mantém lógica de exclusão social

Crédito em 2026: entre juros altos e a disputa pelo futuro do financiamento no Brasil

Por Dentro do Sistema Financeiro: Os novos bancarizados, do PIX à inteligência financeira popular

Por dentro do sistema financeiro: A ‘guerra fiscal’ entre bancos e fintechs

Dossiê Fintechs: as manobras cambiais no Banco Central de Campos Neto

Dossiê Fintechs: ‘Porta giratória’ como conexão lucrativa

Dossiê Fintechs: Questões por trás do movimento de porta giratória

Dossiê Fintechs: Banco Central e Receita estreitam controles sobre operações das fintechs

Fintechs não cumpriram a promessa de trazer maior competitividade e juros menores

Fintechs: da promessa de modernização à rota para lavagem de dinheiro

Tatiane Correia

Jornalista, MBA em Derivativos e Informações Econômico-Financeiras pela Fundação Instituto de Administração (FIA). Com passagens pela revista Executivos Financeiros e Agência Dinheiro Vivo. Repórter do GGN desde 2019.

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7 Comentários
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  1. Rui Ribeiro

    14 de abril de 2026 10:18 am

    O problema na sociedade burguesa e, portanto, capitalista, não é a produção, mas a superprodução da riqueza, que é resultado do sobretrabalho.

    A fim de que a produção da riqueza sirva para as pessoas, em vez das pessoas apenas servirem à produção de riqueza, há que reduzir a jornada de trabalho e a escala 6X1 bem como melhorar a distribuição.

  2. Rui Ribeiro

    15 de abril de 2026 7:54 am

    “Por que o Brasil não é tão feliz quanto parece — e como a Finlândia lidera ranking mundial da felicidade
    Felicidade brasileira está mais ligada à fé do que à solidez das estruturas do país, diferentemente da Finlândia, que é considerada o país mais feliz do mundo”.

    Milton Nascimento e Fernando Brant já sabiam disso há muito tempo atrás:

    “Maria, Maria é o som, é a cor, é o suor
    É a dose mais forte e lenta
    De uma gente que ri quando deve chorar
    E não vive, apenas aguenta”.

  3. Victor lima

    15 de abril de 2026 8:24 am

    O desejo de consumo, estimulado diariamente pelos sistemas de propaganda convencionais e eletrônicos, aliado à uma demanda reprimida histórica por bens de consumo, sao os gatilhos que levam as famílias de várias faixas de renda, a incorporarem o recurso ao crédito em suas práticas para financiamento da sua despesa. Depois que caem na boca do jacaré é praticamente impossível a reorganização das finanças da família. Solução? Educação financeira desde a escola, propaganda massiva ressaltando a importancia da responsabilidade financeira familiar, atuação decisiva dos bancos públicos como a CEF na oferta de crédito com custos mais baixos e atuação do Governo Federal na redução das taxas oficiais de juros que viraram fontes de altos lucros também para o próprio governo. Mas, enquanto o “menino de ouro” do Lula continuar a agradar o mercado no BC, a situação não melhora.

    1. Rui Ribeiro

      15 de abril de 2026 1:07 pm

      Victor, você afirma que altas taxa de juros viraram fontes de altos lucros também para o próprio governo. Em 2014, Eduardo Campos afirmou o contrário:

      “Patrícia Poeta: Então o tempo começa a ser contado a partir de agora. Candidato, vamos começar a entrevista com a lista de alguma promessas que o senhor já fez, eu anotei algumas delas: escola em tempo integral, passe livre para estudantes do ensino público, aumento dos investimentos em saúde para 10% das receitas da União, manutenção do poder de compra do salário mínimo e multiplicar por 10 o orçamento da segurança. Tudo isso significa aumento dos gastos públicos. Mas o senhor também promete baixar a inflação atual para 4% em 2016, chegando até 3% até 2019. E isso, segundo economistas, exige cortar pesadamente gastos públicos. Ou seja, essas promessas se chocam, se batem. Qual delas o senhor não vai cumprir?

      Eduardo Campos: Patrícia, na verdade, só há uma promessa, que é melhorar a vida do povo brasileiro. A sociedade brasileira tem apresentado na internet, nas ruas, uma nova pauta, que é a pauta da educação, da melhoria da assistência da saúde, que está um horror no país, a violência que cresce nos quatro cantos do país. Nós temos que dar conta de melhorar a qualidade de vida nas cidades onde a mobilidade também é um grave problema. E tudo isso em quatro anos. Nós estamos fazendo um programa de governo, ouvindo técnicos, a universidade, gente que já participou de governo. E é possível, sim. Nós estamos fazendo conta, tem orçamento. Eu imagino que muitas vezes as pessoas dizem assim: ‘Houve uma reunião do Copom hoje e aumentou 0,5% os juros’. E ninguém pergunta da onde vem esse dinheiro. E 0,5% na Taxa Selic significa 14 bi. O passe livre, que é um compromisso nosso com os estudantes, custa menos do que isso. Então, nós estamos fazendo contas para, com planejamento, em quatro anos trazer inflação para o centro da meta, fazer o Brasil voltar a crescer, que esse é outro grave problema, o Brasil parou. E o crescimento também vai abrir espaço fiscal. Tudo isso com responsabilidade na condução macroeconômica. Banco Central com independência, Conselho Nacional de Responsabilidade Fiscal, gente séria e competente governando. Fazendo a união dos competentes, dos bons, o Brasil pode ir muito mais longe”.

      Devo acreditar em você ou no Eduardo Campos?

  4. Rui Ribeiro

    15 de abril de 2026 11:48 am

    Enquanto isso, a Argentina do Milei, amigo do Trump e dos Bostonaristas, está de vento em popa:

    “Argentina volta a chamar atenção: uma cena improvável saiu do campo da curiosidade e virou notícia nacional. Em Trelew, na província de Chubut, um açougue começou a vender carne de burro por 7.500 pesos o quilo, em uma iniciativa ligada ao produtor Julio Cittadini e ao empreendimento Burros Patagones. Segundo ele, a expectativa era vender os cortes ao longo de uma semana, mas tudo acabou em apenas um dia.

    A novidade apareceu num momento em que a carne bovina pesa cada vez mais no bolso dos argentinos. O INDEC informou que a inflação de março foi de 3,4% no país, e que a divisão de maior incidência regional foi Alimentos e bebidas não alcoólicas, impulsionada principalmente pela alta de carnes e derivados, com 6,9% no GBA”.

    Banco Mundial vê Argentina entre as economias de maior crescimento da região em 2026 e 2027

    Argentina: pobreza recua para 28,2% da população e atinge menor nível em sete anos
    Situação ainda afeta 8,5 milhões de pessoas, segundo o Instituto Nacional de Estatísticas e Censos (Indec). Outras 1,9 milhão vivem em situação de indigência

  5. Rui Ribeiro

    15 de abril de 2026 12:57 pm

    Na sua opinião, o fato do Flávio Bostonaro estar subindo nas pesquisas de intenção de votos se deve aos seus méritos ou a deméritos do governo?

    Resposta da IA:

    A ascensão de Flávio Bolsonaro nas pesquisas recentes de 2026, que agora indicam um empate técnico ou até liderança numérica contra Lula no segundo turno, é vista por analistas como um fenômeno que combina o desgaste do governo atual com a consolidação da liderança de Flávio na oposição.
    De acordo com o cenário captado pelos levantamentos:

    Demérito do Governo: Há evidências de um desgaste na popularidade do presidente Lula, motivado por desafios econômicos como o preço dos alimentos e o endividamento das famílias. Analistas da CNN Brasil observam que a dificuldade do governo em reverter a piora na avaliação abre espaço para o crescimento de alternativas da oposição.
    Mérito e Estratégia de Flávio: Por outro lado, Flávio Bolsonaro tem se consolidado como o principal nome da direita na ausência de Jair Bolsonaro, liderando estratégias partidárias e ampliando sua presença em regiões onde o governo enfrenta resistência. Sua campanha tem focado em ajustar o discurso para temas cotidianos e buscar alianças estratégicas, como com Romeu Zema.

    Dados de Pesquisas Recentes (Abril 2026):

    Genial/Quaest (15/04/2026): Flávio aparece com 42% contra 40% de Lula em um eventual segundo turno, configurando empate técnico.
    Paraná Pesquisas: Indica Flávio com 45,2% frente a 44,1% de Lula no segundo turno.
    Futura/Apex (RS): No Rio Grande do Sul, Flávio chega a 50,1% contra 39,3% de Lula.

    Em resumo, a subida parece ser alimentada por um “voto de protesto” ou insatisfação econômica com o governo (demérito), mas também pela capacidade de Flávio de herdar e manter o capital político do bolsonarismo (mérito estratégico).

  6. Victor lima

    15 de abril de 2026 6:50 pm

    Eduardo Campos e Milei devem estar certos. Pena que um morreu e o outro esta destruindo a Argentina. Mas isso não importa, o que importa sao os juros altos que aumentam os lucros das instituições financeiras e a arrecadação de impostos sobre as operações financeiras que depois sao usados para custear a dívida pública que aumenta por conta dos juros altos. Santa Maria da Conceição Tavares que olhe por nos.

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